Apagão cibernético evidenciou a impossibilidade de separar a formação de pessoas do ambiente atual cada vez mais conectado, refletem especialistas que discutem como ‘alfabetizar’ sociedade para o uso das novas mídias
Toda a educação é uma educação midiática, pois não podemos nos separar da realidade do nosso tempo em um ambiente cada vez mais conectado e digital.
A frase anterior poderia ser um presságio para o evento que sacudiu o planeta na madrugada da última quinta-feira, gerando temor em sistemas de segurança cibernética e transtornos para empresas aéreas, consumidores e usuários anônimos de qualquer plataforma on-line minimamente conectada a um sistema Windows.
No entanto, o comentário foi dito por Leo Pekkala, vice-diretor do Instituto Nacional do Audiovisual da Finlândia, durante um encontro internacional com representantes de mais de 40 países reunidos em Helsinki para compartilhar pesquisas e debater alternativas para a alfabetização da sociedade, justamente, quanto ao uso de mídias digitais.
O evento foi organizado pela DCN Global, sigla em inglês para uma Rede de Comunicadores Digitais, que surgiu em 2015 e desde então promove encontros com comunidades de profissionais de comunicação, ciência, tecnologia, inteligência artificial e, claro, professores comprometidos com o letramento de uma geração nativa de um ecossistema conectado.
O foco das ações da rede está baseado em três pilares: cidadãos informados, comunidades engajadas e sociedades resilientes. “Neste encontro nós queremos produzir e organizar treinamentos virtuais com parceiros locais.
Isso é muito importante para atuarmos de forma global, mas criando conteúdo e escutando principalmente as pessoas e os contextos do território”, afirma Alexandre Le Voci Sayad, jornalista brasileiro especialista em educação midiática e autor do livro “Inteligência Artificial e pensamento crítico”.
Sayad é membro da DCN e foi o curador do encontro, que contou ainda com representantes de instituições como a revista inglesa The Economist, a Associação Nacional de Educação Midiática dos EUA, a TV Deutsche Welle, da Alemanha, além de iniciativas livres com escolas e universidades de Camarões, Filipinas, Austrália, Canadá, Estônia, entre outros.
O Brasil foi representado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), com o professor Caio Marchi e o Instituto Tecnologia e Sociedade (ITS), com Karina Santos, além da pesquisadora Dora Kaufmann, da PUC-SP, especialista nos impactos éticos da IA.
Caio colabora com o mapeamento de comunidades de práticas de educação midiática na América do Sul. “Tivemos um crescimento de 115 projetos relacionados à alfabetização midiática e informação entre 2019 e 2023, com colaboração de muitas escolas e redes parceiras que estão investigando o tema em seus currículos”, destaca o professor.
Caracterizada pelo conjunto de habilidades para acessar, analisar, criar e participar de maneira critica do ambiente informacional, a educação midiática vem ganhando cada vez mais contornos de solução para alguns dos principais desafios apontados pelo Relatório de Riscos Globais 2024, elaborado na última edição do Fórum Econômico Mundial.
Seria algo como a tempestade digital perfeita, pois envolve o combate à desinformação, os eventos climáticos extremos e a polarização da sociedade. Se somados e colocados em um mesmo caldeirão das mídias sociais, os três temas têm potencial gigantesco para abalar o estruturas do ecossistema digital em uma escala ainda maior do que o evento da CrowdStrike, quando houve falha em ferramentas de prevenção de ataques hackers, pois os efeitos se auto-alimentariam com postagens, produção e distribuição de conteúdo fora dos contextos em plataformas digitais e ambientes de aprendizagem, sobretudo em anos com eleições e com a explosão da inteligência artificial, como em 2024.
Desde outubro de 2023 o governo federal conta com um primeiro esboço de abordagem ao tema como política pública, trata-se da Estratégia Brasileira de Educação Midiática, desenvolvida pela Secretária de Comunicação Social da Presidência da República, a partir de consulta pública e alinhamento com diretrizes da Base Nacional Comum Curricular.
Recentemente, foi organizado pelo Instituto Palavra Aberta, organização que produz discussões e materiais didáticos para educadores sobre alfabetização midiática, a segunda edição de um encontro internacional sobre o tema no Rio de Janeiro.
Em meio à previsão de cenários caóticos com as crises cibernéticas, conectar o pensamento crítico à profusão de mídia no ambiente digital pode ser um bom começo para minimizar os impactos da tempestade. Precisamos acompanhar a previsão do tempo enquanto há tempo para educar.

“Nós não ensinamos sobre o que pensar, mas sobre como pensar”, afirma Carolyn Wilson, diretora-executiva da Fundação McLuham. “É isso que estamos tentando mostrar aos estudantes, como o conhecimento histórico é construído a partir de fatos, datas e acontecimentos. Precisamos questionar isso sempre com responsabilidade”, complementa Julia Nitz, professora da Universidade Halle-Wittenberg, da Alemanha.
Desde outubro de 2023 o governo federal conta com um primeiro esboço de abordagem ao tema como política pública, trata-se da Estratégia Brasileira de Educação Midiática, desenvolvida pela Secretária de Comunicação Social da Presidência da República, a partir de consulta pública e alinhamento com diretrizes da Base Nacional Comum Curricular.
Recentemente, foi organizado pelo Instituto Palavra Aberta, organização que produz discussões e materiais didáticos para educadores sobre alfabetização midiática, a segunda edição de um encontro internacional sobre o tema no Rio de Janeiro.
Em meio à previsão de cenários caóticos com as crises cibernéticas, conectar o pensamento crítico à profusão de mídia no ambiente digital pode ser um bom começo para minimizar os impactos da tempestade. Precisamos acompanhar a previsão do tempo enquanto há tempo para educar.
